"Sobre a tirania", por Timothy Snyder

Mais que um livro, o pequenino "Sobre a tirania" é um catecismo contra o autoritarismo. Um alerta para se ler repetidamente. Um libelo em prol da liberdade. Uma ilha de lucidez: cada parágrafo é um bilhete enfiado pelo náufrago em uma garrafa virtual. Orientado pelas suas convicções, rodeado pela História e assombrado pelos povos que inadvertidamente sucumbiram à tirania, Timothy Snyder identificou em Donald Trump um potencial de dano similar. Então, desprezando os circunlóquios, seu livro é apontado contra o governo de Trump e a ameaça à ordem mundial representada pelo atual presidente dos Estados Unidos. Não pense, entretanto, que é um livro histérico, de alguém que meramente estigmatiza a personalidade controvertida de um velho popstar americano eleito por uma audiência mesmerizada. Não é. Seria uma redução idiota (estamos cheios delas poraí e seria besteira perder tempo com preconceito barato). Se mira Trump, é porque o livro de Snyder é um livro de paralelos. Ele contrapõe os indícios do momento atual aos indícios mal interpretados - ou omissamente acatados - dos regimes totalitaristas do século passado. Historiador do nazismo, o autor é especialista no processo de aceitação do III Reich por parte da população, que aquiesceu com a lenta instauração da tirania, como sapos cozinhados em água fervente. Seu texto é dividido em 20 capítulos e é um livro panfletário, o que seria péssimo; só não o é porque os panfletos são ótimos. Assim, cada capítulo é uma fábula, uma advertência, um panfleto. São intitulados de forma ostensiva, sem rodeios: "Não obedeça de antemão"; "Defenda as instituições"; "Cuidado com o Estado de partido único"; "Investigue"; o alarmista "Mantenha a calma quando o impensável chegar"; e por aí vai. No terceiro deles, um chamamento que nos vem bem a calhar: "Precisamos de votos de papel, que não podem ser adulterados remotamente e sempre podem ser recontados." Para reforçar sua mensagem, convoca pensadores, poetas e escritores. Um dos mais citados é um judeu alemão que pessoalmente admiro, Victor Klemperer. Linguista pouco conhecido (injustamente, penso eu), deixou uma obra ímpar na análise das técnicas de discurso do nazismo: "Na linguagem de Hitler o povo sempre significava algumas pessoas e não outras, os conflitos eram sempre lutas e qualquer tentativa por parte de indivíduos livres para ver o mundo de uma maneira diferente era difamação do líder." Falando em linguagem, ferramenta essencial da plataforma política de Trump e outros enganadores célebres, Snyder fecha o capítulo "Acredite na verdade" com sua definição de um recente modismo empulhador: "A pós-verdade é o pré-fascismo." Já eu sempre achei a pós-verdade o fim-da-picada. Árdua tarefa selecionar passagens do texto para citar - ele é quase todo pertinente e conciso, ou seja, citá-lo seria quase transcrevê-lo. Mas chamo a atenção dos leitores para a síntese brilhante de Timothy sobre a Segunda Guerra Mundial e também seu instigante conceito da "política da inevitabilidade", em seguida confrontado com o que denomina "política da eternidade". Por fim, uma virtude especial do livrinho - uma pequena jóia de muitos quilates - é que ele é de bolso, o que traz convenientes vantagens. Além da literal, ele é sob medida para ter seus parágrafos fotografados e postados nas redes sociais. Com isso, o produto inverte a tese: no texto, Snyder recrimina a superficialidade e inconfiabilidade da internet e prestigia o livro ("afaste as telas da sua vida e cerque-se de livros"); mas, neste formato especial, o livro se encaixa como uma luva para reprodução no face, twitter, instagram e que tais. Vou postar. Amigos meus que tenham interesse no livro não precisam comprar, nem me pedir emprestado: eu dou um exemplar para quem quiser. O danado é tão em conta que a edição impressa custa mais barato (R$ 16,10) do que a edição virtual (R$ 16,90). Eu encomendei quatro agora há pouco, o primeiro já vai para um grande amigo que aniversaria dia 14 próximo - e que, agora, já sabe o preço, foi mal a indiscrição. Mas ele vale ouro (o amigo), o livro é pura prata e o resto é o reles dinheiro. Vão me restar três e eu recomendo a quem ganhe que faça o mesmo: compre quatro exemplares e os dê de presente a quem você admira a inteligência. Privilegie estes, porque os carentes dela não terão mesmo o que fazer com ele. O que é uma pena - e um verdadeiro atraso para este planeta tão castigado.

Companhia das Letras, 168 páginas

"Congelados no tempo", por Owen Beattie e John Geiger

A Expedição Franklin está para a Inglaterra como a Copa de 50 está para o Brasil. Que leviandade essa minha, ehm? porque um trauma esportivo pela perda de um jogo não pode se comparar à perda de vidas. 129 delas, para ser mais exato. Mas esta comparação, despropositada, sobre episódios traumáticos, conta muito sobre os dois países e facilita o nosso entendimento sobre a dimensão do que foi para os ingleses a trágica história dos navios Terror e Erebus (que se deu 102 anos antes da nossa lamentada derrota para o Uruguai). A frota era composta por navios construídos com a nata da tecnologia da época, preparados, detalhe por detalhe, para permitir que seus capitães fossem os primeiros, na história da humanidade, a descobrir a passagem Noroeste entre o Pacífico e o Atlântico, em meio ao infinito emaranhado de gigantescos blocos de gelo do Polo Ártico. À época, era o derradeiro bastião inexplorado do planeta a ser conquistado. Não desta vez, porém. O minucioso livro de Beattie, o cientista, e Geiger, o jornalista, publicado há mais de 30 anos, descreve cada etapa da montagem da expedição que partiu de Londres em 1845 - e seu destino macabro. Nenhum dos tripulantes voltou ou deixou registro do que se passou. Até a publicação do livro, em 1987, os navios jamais tinham sido encontrados. Por anos sucessivos o desaparecimento de Franklin e seus 128 comandados dominou as manchetes dos jornais britânicos. A expedição criada para desbravar o polo havia sido sugada pelo desconhecido. A milionária Lady Franklin, esposa do capitão, tornou-se lendária pela sua incessante busca do marido, financiando viagens, visitando gabinetes, oferecendo prêmios. Motivadas por razões financeiras, patrióticas e científicas, inúmeras outras expedições partiram, em sequência, visando desvendar o mistério do desaparecimento dos navios Terror e Erebus. Uma delas, ao se deparar com nativos inuítes (os esquimós), foi guiada a túmulos de alguns dos tripulantes. Estórias arrepiantes foram contadas pelos nômades caçadores locais e ao menos uma autópsia foi feita. O que descobriram confirmou as suspeitas: após terem entrado em um labirinto de geleiras que se fechou para não mais se abrir, todos estavam mortos, vítimas de escorbuto, tuberculose e inanição; pelo menos, era o que se acreditava. Para consternação dos que encontraram ossos avulsos pertencentes a membros da expedição, havia fortes evidências de canibalismo. O mais estarrecedor: tudo levava a crer que alguns marujos foram atacados, ainda vivos, pelos próprios colegas. O impacto da descoberta sepultou as expectativas por um improvável desfecho glorioso. A ansiedade pública foi substituída pela contrição e por uma cerimoniosa conformação. Não obstante, o peso do acontecido no imaginário inglês foi tal que, mesmo passado mais de um século, novos grupos de estudo se dedicavam ao caso - até que, nos anos 80, o antropólogo Owen Beattie, que já vinha apresentando resultados relevantes na investigação de causa mortis baseado em resíduos ósseos, se interessou em exumar os cadáveres congelados da Expedição Franklin, em busca de respostas para o que verdadeiramente aconteceu com os 129 marujos. Um pormenor se destacava: 24 óbitos, taxa inusual, ocorreram antes dos navios ficarem presos no gelo ártico. Destes, os três primeiros a morrer estavam enterrados na Ilha Beechey. A obra reconstitui com perfeição as pesquisas científicas empreendidas e como foram obtidas as conclusões que mudaram a história oficial. Como o fato é uma verdade histórica, e não um enredo ficcional, não há por que se evitar o famigerado spoiler. O Brasil perdeu a Copa e os tripulantes da Expedição Franklin foram vítimas da solda de chumbo das latas de carne. A contaminação por chumbo lentamente os adoeceu e incapacitou, mas não os mataria, não tivessem ficado eles presos na Ilhas Rei Guilherme. Por outro lado, outros navios também passaram o inverno presos em algum ponto do Ártico, e nem por isso seus marujos morreram em profusão - muito menos a trágica marca de 100% dos homens de uma gigantesca expedição. Nas entrelinhas percebo a suspeita dos autores de que a nossa velha conhecida letal, A Corrupção, tenha tido enorme parcela de responsabilidade no lento assassinato da tripulação. O fornecedor da comida em lata, Stephen Goldner, já havia sido vetado anteriormente, por fornecimento de carne contaminada. Como um fornecedor banido por entregar carne estragada se habilitou para participar da licitação de mantimentos para a maior expedição ao Ártico jamais empreendida? A gente por aqui tem cinco séculos de experiência em como essas coisas acontecem. Quando hoje, no Brasil (o país que para perder duas Copas em casa construiu inúmeros estádios desnecessários, embora precisando de hospitais), se diz que A Corrupção mata, deveríamos recorrer a exemplos inequívocos como este, inconfundíveis como um iceberg. A leitura de "Congelados no tempo" me fez percorrer planícies geladas, escuras e inóspitas e imaginar a coragem e o desespero dos homens que se lançaram neste desafio. Demonstra também como a paixão pelo conhecimento move a nossa espécie. O livro, apesar do assunto mórbido, é empolgante pela minúcia com que descreve a expedição dos cientistas e antropólogos, 140 anos depois. Tudo isso me caiu às mãos em meados de outubro, ao navegar pelos sites dos museus londrinos, preparando a viagem que faria em algumas semanas. Ao verificar a programação do Maritime Museum, vi o link para a exposição "Death in the Ice" e me interessei. Fucei na internet em busca de mais informações e soube do livro, lançado aqui em 2001 e já esgotado. Achei um exemplar num sebo virtual, por R$ 20,00, e embarcamos ambos, eu e o livro, para o Reino Unido. Apesar de quase barrado na Escócia, alcancei a exposição em um domingo, abaixo de zero. Vi imagens dos navios submersos, feitas há dez anos e um achado impensável na época em que o livro foi escrito. No mundo atual, em algumas horas se atinge lugares que estes aventureiros do século XIX levaram meses para percorrer. Nenhum deles voltou à pátria. O trajeto que fizeram, porém, foi o fio condutor que levou as expedições seguintes à passagem Noroeste. Através dos milênios, nada resistiu à compulsão humana pelo conhecimento. A Expedição Franklin pagou com a vida, mas seu feito permanece na memória do povo inglês. Reverencio estes valentes 129 desbravadores e me curvo ao  seu sacrifício. Humanos que somos, navegamos juntos neste mesmo esquife. Inquietos e ambiciosos, queremos sempre saber mais. É o nosso impulso e o nosso destino.

Editora Record, 208 páginas

"A reparação", por Ian McEwan

É subir uma montanha fresca e íngreme, com um lago de cinema no sopé, onde a gente se deixa cair - relaxado - e desaba. Talvez seja isso que eu tenha sentido ao ler a ficção de Ian McEwan. O autor conduz o leitor como se fosse um acrobático dançarino de tango - inebriado, você se permite levar, mas incapaz de antecipar o próximo passo, sempre refém dos meneios do escritor. O coração da estória se passa em um único dia, quando acontecem os fatos que repercutirão até a última linha da derradeira página. Em uma tarde quente de 1935, uma família do interior recebe parentes. Um dos familiares é uma menina que sonha ser escritora - e vê a irmã em uma cena constrangedora com um agregado da casa, o já não tão modesto filho da empregada. A partir daí, a habilidade com que McEwan se detém no pensamento dos personagens dá foros de protagonista a cada integrante do núcleo; desta forma, Cecília, Briony, Betty e Robbie rodopiam diante de nós com um detalhismo excessivo, mas ao qual sucumbimos, ciceroneados pela exuberância das descrições. Súbito, em meio ao bailado, o fato detonador da trama desmonta qualquer suposição prévia, ou mesmo a ausência delas. O andamento lento e idílico da narrativa é varrido para baixo do tapete e uma nuvem de Zyklon-B irrompe do livro, não nos dando chance de respirar. O rio que vinha em curso, cada vez mais caudaloso, agora despenca em catarata. Para deleite do leitor, McEwan não oferece desdobramentos óbvios às cenas tensas e o ápice da tensão vai na direção oposta ao dramalhão. Há plácidos momentos de rotina - mas que são palco de cataclismas íntimos, enquanto as situações de confronto são secas e rápidas. O cenário histórico da pequena tragédia dos Tallis são os momentos que antecedem a Segunda Guerra Mundial e, depois, via Dunquerque e Canal da Mancha, a fuga dos ingleses da França ocupada. A imersão na época é digna de faro de cachorro - se você não soubesse que o autor nasceu alguns anos depois das situações que descreve, você juraria que ele viu tudo aquilo acontecer. De cabo a rabo, é livro para se fazer uma mesura à passagem. Ressabiado - como sempre, antes de uma ficçãozinha -, eu comecei a lê-lo alguns dias antes de viajar para a Inglaterra. O livro se passa na Inglaterra, eu vou para a Inglaterra, gosto dessas redundâncias turístico-literárias. Mas engoli o livro e logo restavam apenas meia centena de páginas. Maçada, eu sabia que leria o que faltava ainda no vôo - e depois passaria duas semanas arrastando o livro pra cima e pra baixo no Reino Unido, com direito a nevascas úmidas. Resolvi deixar o livro nos trópicos. Na viagem, entretanto, volta e meia pensava nele. Assim voltei, retomei o danado, para o dito cujo, em represália, me dar um coice na página final. Sem queixas. Fez seu serviço de me desconcertar.

Companhia das Letras, 269 páginas

"Rio em shamas", por Anderson França, Dinho

Anderson França, o Dinho, manda bem. Vi a dica da Cora Ronai, encomendei na Amazon e me diverti. Acabou que larguei o livro, em meio a outros que estava lendo; aí li tudo outra vez. Dinho é cheio das firulas estéticas e sua força está em desmontar o formal com seu palavreado da periferia. Ele areja a leitura com o "falar errado" que há um tempo atrás indivíduos que se intitulavam educadores sugeriram como currículo escolar. Pior: com chancela governamental (cá para nós, no texto autoral é delicioso, como grade escolar é uma bizarrice). Mas as virtudes de Anderson França não se limitam à prosódia marginal - Dinho é debochado demais, seu humor escrachado é tipo top. Em uma das boas crônicas do livro, a "Nunca antes na história desse país" (talvez melhor nomeada com uma das suas frases de abertura, "A classe D vai à suruba"), o autor demole o mistério por trás das casas de swing: "É meio que uma feira de São Cristóvão em dia de Elba Ramalho, só que com luzes baixas em corredores apertados. E ninguém trepa. É sempre todo mundo procurando 'a boa'. A 'boa' seria todo mundo trepar." Dinho tá com a verve: "Mas tem um motel em Madureira que é o point dos swingueiros. Funk pra caralho, combo de cerveja no balde de plástico, um cheiro úmido de inhaca, um chão escorregadio de porra, É UMA BENSSÃO. Uma metelança de uns 10 nego beligerante com a piroca na mão pra duas mina magrinha. É basicamente tudo garota de programa, mas tem a fantasia de ser festa de casal." O cara soca no linguajar. É uma deliciosa ducha gelada para quem tá assando no calçadão de Bangu. A recusa ao uso do plural traz o frescor do populacho. "SAC" é outra imperdível da lavra. Mas - tem sempre um mas - França ainda tem uma Igreja da Penha pra subir e provar que seu talento não se restringe a um folclore monocórdio. Porque seu hilário, e contundente, conteúdo padrão é a repetição sistemática de um mesmo ponto de vista: um sujeito da favela, da periferia, falando as verdades da vida de pobre, detonando as hipocrisias de ambos os lados do apartheid social e denunciando o que já é comumente denunciado, só que com seu tempero irreverente. É bom para um sprint (como o daqueles que ele zoa do carioca atrás de ônibus), mas não é lastro para uma maratona. Por enquanto, o clichê da revolta social deixa rançosa a sua literatura, gordamente diluída após a sucessão bem-humorada (e promissora) de gagues e trejeitos. Diretamente da laje da classe preta fudida suburbana lança seus petardos moralóides nos córnos dos ricos brancos da Zona Sul. "E você usando essa camisa da Reserva, toda otária?" Neste segmento do vestuário, Dinho é definitivo: "Os otários usam Lacoste." O autor profere um repetido e continuado julgamento contra uma classe social (à qual ele designa a rubrica de "brancos e ricos"), que acumula os piores defeitos, e faz a apologia do pobre, do negro e do nordestino. Tolice. É o velho mimimi preconceituoso de sempre, só que com o sinal trocado. Na revisão dos textos que compõem o livro, não reparou que sua crítica à escrotidão da mulher rica ("Fila do balcão da Polícia Federal. Mulher loira, magra, com uma camisa polo da Lacoste, dizendo em voz alta que não ia ficar na fila porque ela tinha o direito de ser atendida em prioridade, por causa da filha pequena, no colo da única pessoa não-loira dessa cena, uma senhora com cara de alagoana"), vira elogio oito páginas depois, como prova da esperteza da mulher pobre - no caso, a própria mãe: "Minha mãe desenvolveu essa técnica de colocar os filhos em pontos estratégicos das filas. Funcionou no mercado nos tempos da ditadura, funcionou nas filas do Banerj, cada filho de menó numa fila, quem chegasse primeiro chamava a mãe." Sua recriação do passado dá uma venezuelizada no Brasil. "O mercado abria e era uma senha pra cada um, tu só podia pegar 3 quilo de cada coisa. Por isso minha mãe botava minhas irmã em partes diferentes da fila. Assim, a gente conseguia pegar uns 5, 6 quilo." Ou seja, em um determinado tempo (1982) e lugar (Rio), a senhora genitora do autor viveu em um ambiente de restrição de compra de alimentos, que ela, esperta, burlava, visando ter um benefício maior que seus iguais, também na fila, mas menos espertos. Não vou aqui recriminar a mãe do Dinho, que nem conheço - vendi o peixe pelo preço que comprei -, nem o próprio Dinho. Rapá, já fiz coisa MUITO pior que isso. Mas a mãe do cara evidencia que agir de forma correta não é questão de ser rico, é questão de cada qual. Esse blablablá contra os "ricos" é CHATO PRA CARALHO e está presente em todo o livro. Haja saco. Ele adiciona a isso aquela versãozinha que pretende que o Brasil de antes e o de agora são diferentes em termos de oportunidades para os "pobres". Cuméquié? Basta rodar por aí para constatar que continuamos todos na mesma merda, se não for pior.  Dizer que hoje "pobres" viajam de avião como se fosse resultado de alguma política nacional é uma babaquice. O turismo hoje é 20 vezes maior em todo o mundo. As classes de menor renda em todo o planeta Terra passaram a fazer turismo, como não faziam nos anos 90. A tecnologia e a internet comoditizaram o produto turismo e deu nisso, neguinho não senta o cu em casa no fim de semana. Se espertalhões e demagogos tentam capitalizar essa evolução em benefício próprio, problema dos "otários", usando ou não camisas da marca "X" ou "Y" (curioso também que o "pobre" Dinho critique as marcas, quando foram as camadas populares que criaram a expressão "camisa de marca", como objeto de fascínio e desejo). Outra é que ele adora falar de taxista, mesmo alegando ter sido sempre um fudido. Eu, que nunca morei na puta que o pariu e nunca fiquei sem comida em casa, conto nos dedos as vezes que peguei táxi na vida, coisa de rico. Sempre peguei ônibus ou fui à pé, até o dia que juntei para comprar meu primeiro fusquinha, que me exigiu um ano de trabalho como vendedor, sem tomar uma Coca-Cola sequer, só pra economizar. Assim comprei meu calhambeque azul (que me custou doze milhões e oitocentos mil cruzados, um ferro-velho que bebia óleo em vez de gasolina e que vendi por dezessete milhões umas três semanas depois). Pois é. Todo mundo rala. A casca de banana no caminho do Anderson é o rancor contra pessoas que tiveram socialmente um ponto de partida diferente do dele - adversários que hoje são seus leitores e entusiastas. Contraditório, não? Essa revolta empobrece sua literatura ("Santa Cruz", "Chronicles of a loser", "Inversão", "Aqueles 20 centavos" e outras) e chega a esvaziá-la quando ganha contornos panfletários, ao fazer apologia de Lula, Dilma e do governo petista. Mas essa bobajada pseudopolítica embaça, mas não apaga, as muitas qualidades do cara. Ler o Dinho é visitar um Brasil genuíno, que é dominante nas ruas e nas quebradas, mas não tem firma reconhecida. Não entendi patavinas foi a ameaça que ele sofreu por ocasião da FLIP, que neguinho queria abotoar ele num sei porquê. Googlei pra caraca e não achei desdobramento nenhum da parada, parece que, depois do oba-oba da denúncia, a sequência do que não houve caiu num buraco negro, ninguém matou, ninguém morreu e também ninguém se preocupou mais com isso. Antes assim.

Editora Objetiva, 116 páginas