"1789", por Pedro Doria

Há muitas inconfidências mineiras. Há muitos Tiradentes. Seria bem mais simples preservarmos a versão idealizada do herói da liberdade. Algo que pudéssemos ir para a rua neste 21 de abril e fazermos um jogral. "Tiradentes!" gritaria um político ao microfone, a praça cheia. "Presente!" diria um ativista de bandana. O político aumentaria a intensidade: "Tiradentes!" Uma mulher negra, com roupas coloridas à africana, responderia, para júbilo da multidão: "Presente!" E assim ganharíamos o dia. Não importa que este mito popular tivesse sido formatado e ampliado pela ditadura militar, para significar, em tese, o pensamento oposto dos que o celebram agora (não importa mesmo, pois são opostos apenas em tese). A pena é que aquele Tiradentes fácil da minha infância, do glorioso samba-enredo do Império Serrano, não existe mais. O mártir cabeludo foi descascado como uma cebola. A última lasca a me arder os olhos foi fatiada por Pedro Doria, com seu "1789". Há quem superestime a participação de Joaquim José da Silva Xavier ("era o nome de Tiradentes", já me ensinava o tal samba na infância). Outros a minimizam. Não é realmente o caso de Doria. No seu livro, o alferes é o protagonista. O ator principal. Mas a trama se desenvolve ao redor dele, em círculos concêntricos, cabendo a ele o protagonismo de uma das lâminas do miolo. Esta é a história que nos traz o autor. Para entender seu ponto-de-vista, a chave está no final, no posfácio, onde ele disseca as fontes. Entre elas, elogia aquele que considera o melhor dos títulos a nomear livros sobre a inconfidência: "O diabo na livraria do cônego", de Eduardo Frieiro, publicado em 1946, referência a um dos intelectuais da ação. Disserta sobre os antigos historiadores da Inconfidência Mineira, se estende sobre as hipóteses de trabalho de cada estudioso do tema. Ali o cerne da sua pesquisa ganha uma lente de aumento. Mas o passo o passo com que conduz a sua versão do que terá sido a Revolução Brasileira é desdobrado (e bem) nos enxutos parágrafos da sua obra. Doria radiografa os grupos de interesse por trás da natimorta tentativa de rebelião contra a Coroa portuguesa e os reúne em três agremiações: os cobiçosos, os idealistas e os endivididados. Para entender bem como Doria vê o que se passou, vale lembrar a frase de James Carville, marqueteiro de Bill Clinton, mais de um quarto de século atrás: "É a economia, estúpido." O eixo da ação da inconfidência era bem menos filosófico do que a versão romanceada. A base que financiaria a inconfidência viria, em suma, dos contratadores endividados. Se você não sabe quem são, não tem porque se acanhar, porque nenhum de nós sabe o que verdadeiramente importa. Veja o STF hoje. Mas avancemos sem digressões. Pedro Doria nos explica os contratadores e estende sobre a mesa um generoso panorama das relações de Portugal com o Brasil. A Colônia era rentável, mas era uma imensidão distante para administrar e de onde tirar o justo lucro custava caro. Assim, o reino português vendia os... impostos! Os contratadores assumiam a tarefa, que cabia ao governo, de cobrar os impostos decorrentes da circulação de mercadorias. Antecipavam a Portugal um valor previamente acordado, que se supunha seria a arrecadação mínima dos tais impostos de arrecadação comprada. Caso a cobrança lhes rendesse menos, ficariam no prejuízo; ultrapassando a estimativa acordada, era lucro. O uso da força e a auditoria in loco cabiam ao reino; ao contratador cabia a administração da cobrança, em todas as suas etapas, incluindo a tesouraria. Porém, nas sucessivas renovações entre Portugal e os contratadores, uma fortuna ia ficando por pagar, sob as mais diversas alegações. Fato é que os representantes deviam toneladas de ouro ao reino e não tinham como se acertar com Lisboa. Uma revolução que quebrasse os vínculos entre Brasil e Portugal seria um presente dos céus. É aí que entram os inconfidentes. A Inconfidência Mineira, caso vingasse, valeria uma fortuna para os contratadores, que se eximiriam de enviar ao reino as toneladas de ouro em atraso. Por isso valia bem gastar uma fração destas toneladas para custear a revolta (comento aqui um dos ângulos da estória contada por Doria, um aperitivo que estimule quem me leia a beber diretamente do texto do autor). Mas, como dizia, ninguém ali era santo e cada um tinha suas razões. Os inconfidentes estavam muito longe dos românticos intrépidos que imaginamos. O que eles mais queriam era se dar bem. Após Tiradentes, o segundo nome mais famoso da Inconfidência é Tomás Antônio Gonzaga, um alto funcionário público que perdeu status e dinheiro com a chegada do novo governador, Luís da Cunha Meneses, o Fanfarrão Minésio (que, para montar seu próprio esquema, quebrou o esquema anterior e motivou a trama inconfidente). Tipo um Temer pós-Dilma, um hipotético Bolsonaro pós-Temer, um Crivella pós-Paes ou qualquer outra desgraça que lhe ocorra. Então a trama inconfidente tinha muito de quero-o-meu-de-volta. Ao redor de Tomás giravam uns outros sem poder e até mesmo alguns idealistas de verdade. Mas havia também muita gente na expectativa de enricar - e, para os excluídos da elite, participar da derrubada de um poder era uma maneira de cavar lugar no poder que o substituiria. Fato é que a propalada Inconfidência Mineira foi a história do que não houve (da mesma forma como não houve a derrama, escorcho do Estado sobre o povo, que se imaginava seria o detonador da revolta). Resumindo assim, e sem avançar no delicioso script que Doria nos oferece, temos um painel relativamente sóbrio do que foi a Inconfidência. Como acepipe adicional, vale ressalvar a ágil costura de perfis que ele nos oferece em "1789". Muito além de Tiradentes, temos os necessários Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, mas também temos de brinde os perfis do Marquês de Pombal e Thomas Jefferson, com revelações sobre a participação indireta deste último nas tramas inconfidentes, possivelmente por um ramo carioca da revolução que nunca veio a público. O livro é curto e o leitor, este curioso ávido, queria mais. Guloso, choraminguei comigo mesmo que vieram menos parágrafos do que os que paguei. Esganação. A obra é de tamanho razoável, paciência. O livro traz também informações típicas de rádio-relógio ("Você sabia?") que eu e a torcida do Botafogo jamais imaginaríamos. Que Joaquim Silvério, o traidor oficial do Brasil, era tio do Duque de Caxias (algo como o Gigghia ser tio do Dunga). Que quando estava em vias de ser preso, quem tentou ajudar Tiradentes foi um rico filho de Chica da Silva (no meu subconsciente a eterna bisavó da Zezé Motta). Que Ouro Preto, então Vila Rica, já foi a maior cidade do país. Que o sedutor Gonzaga, o Dirceu de Marília, era baixinho, gorducho e careca. Não deixa de ser curioso, embora provavelmente eu vá esquecer de tudo isso. Talvez lembre do Gonzaga. Por fim, temos Tiradentes. Hoje ele tem muitas faces e a face escolhida por Doria não é simplista. Abre mão do maniqueísmo que faz dele ou herói grego ou idiota manipulado. Doria fala dos negócios e do tal alferes, esse legítimo brasileiro, ansioso e ambicioso, destemperado, pé-de-boi. Corajoso. José Joaquim da Silva Xavier. Um nosso conterrâneo que pegou o bonde errado, na hora errada, em direção incerta. Pagou o maior preço: foi o único tarifado com a vida. Seu prêmio foi ser colosso na posteridade e figurinha de Mártir da Pátria. Virou palácio, praça e medalha. Nada de escravos, nada de fazendas, nada de ouro. Sei não. Levo pouca fé que ele levasse este título de herói póstumo em grande conta. Acho que Tiradentes queria o dele aqui na Terra. Em espécie.

Editora Nova Fronteira, 264 páginas

"A conquista do Brasil, 1500 - 1600", por Thales Guaracy

Da forma que Guaracy termina seu livro, me perguntei: que estória foi essa que ele contou? A vitória dos caraíbas ou a tragédia dos tupi-guarani? Seu fim melancólico, felliniano, com uma tribo guarani que cruzou o continente para atravessar o mar e acabou tapeada por Getúlio Vargas, me deu esse travo na língua, esse estupor. Mas, apesar do poético desconcerto com que encerra, os índios são coadjuvantes de luxo, tal e qual seus irmãos do norte nos bons filmes de faroeste dos anos 50. A nossa história é branca. Seu ludibriado fechamento mostra apenas o respeito com que a destroçada nação indígena foi relatada no livro. Thales Guaracy fala sobre a Conquista do Brasil. Por nós, eu e você. Uma terra que pertencia aos outros e que foi tomada (de quem a tomou dos donos anteriores). Esta é a nossa versão, euro-lusa, a de uma terra imprestável e imensa (muita praia e pouca barraca) que acabou se tornando fonte da nossa riqueza e projeção. Porque somos nós os descendentes daqueles que vieram tomar este continente. Brasileiros eram os outros, aqueles que matamos. Nós somos os invasores. Brancos, pretos ou amarelos, somos os filhos e continuadores da cultura invasora e dominante. Hegemônica. E o que Thales Guaracy nos mostra é que esta invasão e esta tomada foi tudo, menos pacífica. Foi uma carnificina. E de ambos os lados. Nada de estorinha. O índio selvagem era, principalmente, selvagem. "Devido ao costume de oferecer mulheres aos visitantes, ou aos prisioneiros que mais tarde seriam devorados nos rituais de guerra, muitas índias pariam crianças condenadas também à morte após o nascimento. Os índios matavam o bebê como um prolongamento da vingança sobre o inimigo." Vale frisar que o índio não matava essa criança meio índia no nascimento. Muitas vezes, aos três anos de idade. Enterrada viva. Ratificando, o índio era um selvagem. Imprevisível, insubmisso, inconfiável. Brancos e índios guerrearam entre si, incluindo brancos contra brancos e índios contra índios, por décadas. Dizimaram-se mutuamente. Enquanto Portugal foi negligente quanto à terra descoberta, os portugueses que para cá vieram penaram. O turning point desta provação se deu no Rio de Janeiro, com Mem de Sá e sua prole. Em nenhum outro momento da História do Brasil o índio esteve tão bem organizado para rechaçar o português como no Rio, 60 anos após a chegada dos brancos ao continente. Já havia aprendido com o próprio branco como se organizar. Seus fortes já eram estruturados em paliçadas triplas. Suas defesas eram guarnecidas de canhões. Seu time estava enriquecido com algumas dúzias de franceses, que se tornaram índios. Mas isso foi o futuro desse passado distante. No antes, Portugal não sabia muito bem para o que serviria o Brasil. O seu quinhão atlântico de terra só não foi perdido porque bandidos portugueses como João Ramalho se estabeleceram e viraram caciques, com filhos meio índios que, ao invés de serem enterrados, viraram caçadores de outros índios e criaram uma espécie de reino, o de Piratininga (o nome indígena de Ramalho).  Mas este reino, se poderoso, açambarcava apenas a região que hoje é São Paulo e seu interior próximo. O território era grande demais. Se no Nordeste um tímido sistema econômico viria a se organizar ao redor do pau-brasil e depois da cana de açúcar, no Sul o buraco era mais embaixo. Ou um pouco acima. Na Guanabara a confederação de índios e franceses derrotou o frágil Estado português. Foi somente com a vinda de Mem de Sá (a quem o autor faz a justiça devida, alinhando-o, ao lado de Nóbrega, Anchieta e Estácio de Sá, aos grandes da nossa História) que, ao longo de uma década, os nativos, os proprietários anteriores do paraíso, foram subjugados, expulsos ou dizimados. Esta é a principal e eletrizante estória contada por Guaracy. Como um thriller de suspense, montado pela capacidade do autor de destrinchar os documentos quinhentistas, ler os incontáveis historiadores do período e contar em ritmo de ação a estratégia lusitana para a retomada do Rio de Janeiro, algumas boas dezenas de páginas sugam o leitor para dentro do livro. O Rio, esta belezura quente e abafada, tem vocação atávica para teatro de guerra. Vendo as ondas do calçadão e as pranchas de windsurf, a gente pensava que não, até os anos 80. Mas Thales Guaracy nos revela que as plácidas águas da Baía de Guanabara sempre tiveram gosto de sangue.

Editora Planeta, 254 páginas

"O Rio pelo alto, 1930 - 1940", por Patricia Pamplona

Para você que gosta do Rio desde antes dele estar sob intervenção militar (após décadas como vítima de um conluio dos governos municipal, estadual e federal para roubar, extorquir e tiranizar o solo e a população carioca), este é um livro de lamber os beiços e abrir os olhos. O prato servido - ou melhor, banquete - são fotografias de reconhecimento aéreo do município, tiradas na década de 30. Nelas, registros impensáveis do século anterior ainda estão ali - incluindo um transatlântico de concreto construído para se comemorar o Carnaval, em pleno descampado oriundo do desmonte do Morro do Castelo. Este é um brinde suplementar de cada época: os anos têm, em si, além da própria circunstância temporal, as estruturas ainda vivas das gerações anteriores. Assim, as fotos aéreas do Rio dos anos 30 mostram não só a cidade de então, mas também a metrópole se preparando para o colosso de sedução que viria a ser nos anos 50 e 60 - e, também, o que da segunda metade do século XIX ainda restava em pé. O livro é uma soberba edição de luxo patrocinada pelo Museu Aeroespacial. Vistoso e bilíngue - o que invariavelmente enfeia o projeto gráfico, entulhando e dificultando a diagramação -, ele é dividido pelas regiões fotografadas: Centro, Zona Norte, Zona Oeste e Zona Sul. O Rio de oito décadas atrás nos surpreende: o edifício de A Noite, na Praça Mauá, como o único arranha-céu da cidade; o absurdo, já na abertura referido, transatlântico ilhado na Esplanada do Castelo, um quilométrico terreno baldio resultante do desmonte final do Morro do Castelo (conhecido como o Navio dos Laranjas, o iate de concreto teve quebra de champanhe no casco e venda de ingressos no Teatro Municipal); a Ilha de Villegagnon com o Santos Dumont ainda por construir; a cidade pré e pós Avenida Presidente Vargas;  o Mercado Municipal, com seus 4 torreões (o único torreão remanescente virou o restaurante Albamar); o Maracanã ainda nos primeiros andaimes; o campo do Andaraí, celebrado no samba de Zeca Pagodinho; o Campo dos Afonsos com os zeppelins e seus hangares, inclusive com um deles (o zepellin, não o hangar) sobrevoando Copacabana; as chácaras de uma Ipanema plana, onde a praça Nossa Senhora da Paz era o principal destaque; idem para a Praça do Lido, na já mais desenvolvida Copacabana; a Lagoa deserta e sem aterros;  o morro atrás do Copacabana Palace; o início da enseada de Botafogo, com o campo alvinegro em General Severiano ainda dominante; a Rua Paissandu conduzindo, garbosa, à residência da Princesa Isabel; etc. Um Rio de perder o fôlego e que justifica, com sobras, seu protagonismo de musa na marcha "Cidade Maravilhosa". Consolador que a música tenha resistido aos tempos, ainda que hoje ela pareça mais um deboche, diante do caos que é sua rotina e do filme de terror que é o seu noticiário. O Rio, este lugar a se evitar, já foi sonho de consumo em França, Oropa e Bahia. Por isto, esta edição é reveladora. Só compreende o glamour sem fronteiras desta minha arrasada cidade natal quem vê o esplendor da sua juventude. Coração do meu Brasil.


Editora ID Cultural, 156 páginas

"Highlands", por Guilherme Cavallari

A Escócia mexe comigo. Não me pergunte por quê. A única resposta que posso dar é idiota: uma história em quadrinhos que li quando tinha 7 anos, sobre Rob Roy. Talvez eu morasse na Bahia, nessa época, e estivesse apaixonado simultaneamente pelos acarajés, o que torna tudo ainda menos provável. Rob Roy saltava de kilt entre os penhascos e se agarrava no galho retorcido de uma árvore para não despencar pedreira abaixo. Hoje sei que há poucas árvores nas Highlands, principalmente na beira de penhascos. Mas fato é que a Escócia e as Highlands nunca me saíram do pensamento. Há alguns anos fui para lá. Só reforçou o feitiço. Continuo achando aquele monte de pedregulho o lugar mais bonito do mundo, ignorando ter nascido no Posto Seis de Copacabana, crescido na praia de Ipanema e vivido cercado pelas matas de Petrópolis. Mas para mim essas belezuras não são páreo para a Ilha de Skye. Por isso, quando meu filho Durval me deu o livro do aventureiro Guilherme Cavallari, já pela capa eu vi que não tinha como não gostar. Não deu outra. É um relato saboroso de um sujeito que resolveu cortar as Highlands pelo ombro esquerdo, pela parte noroeste da ilha, e foi, passo a passo, de Fort William a Cape Wrath, lá onde a Escócia acaba. São quatrocentos e vinte quilômetros de morro, pedra, chuva, vento e capim molhado. De dar água na boca - pelo menos, em tese. Eu, na prática, não conseguiria chegar nem próximo desta proeza, uma raspinha que fosse, sequer uma meia-dúzia de corbetts, ou mesmo uns três munros (não sabe o que é, né? já lhe conto). Sou um cara animado, mas sou só um turista apaixonado, e turistas são uma outra natureza de gente, bem diferente do casca-grossa aventureiro - como define o autor sem piedade, quando, já quase no fim da missão, em meio à neblina espessa, resolveu usar o GPS como instrumento de navegação, e mergulhou numa crise de consciência ("Eu estava roubando. Seguir um trajeto digital era o mesmo que contratar um guia - e aventureiros de verdade não contratam guias. Essa era a diferença entre um turista e um aventureiro.") Bem, como já disse, eu sou turista e contratei um guia. Dos bons, por sinal. Mas ler o texto deliciosamente highlander deste trilheiro profissional não quer dizer acompanhar o relato monocórdio de sobe morro, desce morro, corta lago, cruza rio, arma barraca e olha mapa - embora tenha uma boa centena de páginas dessa trosoba aí. A outra centena delas é História. E livros, muitos livros. Um dos personagens principais do seu roteiro literário pelas Highlands é John Muir, um escocês de meados do século XIX, que o autor inicialmente descreve como um "filósofo da natureza", mas que, à medida que o livro encorpa e o personagem retorna, a gente percebe se tratar de um gigante. Um idealista obstinado que dedicou a vida a explorar e proteger o ambiente. De jovem estudioso que emigrou para a América a naturalista que criou o parque de Yosemite, na Califórnia, Muir teve uma carreira surpreendente, incluindo criar um despertador-catapulta, com uma engrenagem que lançava longe da cama o dorminhoco, quando dava a hora (apesar de engenhosa, a geringonça teve pouco mercado e não foi adiante). E não é só Muir, o precursor do preservacionismo, que peregrina pelas prateleiras de Cavallari. Há muitos outros sujeitos caminhando por ela, embora nem eu, nem provavelmente nenhum dos meus três leitores tenha jamais ouvido falar deles. Hamish Brown, por exemplo - cujo Hamish's Mountain Walk se tornou a biblía do montanhismo escocês, com o relato da sua travessia pedalando 2.600 quilômetros pelas Highlands (durante 112 dias consecutivos, subindo 289 picos, que totalizaram 136.000 metros verticais) -, popularizou a atividade. Mas o que eu mais gostei nele foi o fato de que o radical fazia seus trechos mais insossos de trekking lendo, com um livro nas mãos. Uau! Imagina a cena. Esse é dos meus. Mas Cavallari traz outros autores highlanders, nativos ou por adoção. Seton Gordon. Tom Weir. Paul Theroux. Plinio, O Velho. Hugh Thomas Munro. Este aqui publicou há 125 anos as Munro's Tables, com a listagem de todos os picos escoceses acima de 3.000 pés de altitude. Na época, se pensava que eram no máximo trinta. Munro achou 282. O sujeito virou esporte, o munroísmo. De lá para cá o que não falta é montanhista que coleciona munros (Viu? expliquei. Já Corbett foi um sujeito que classificou morros menores, e acabou substantivo também). Vale muito é que o percurso solitário de Cavallari, quando impresso, vira aula de história, e das divertidas. Aprendi muito sobre o país e sobre as highlands, e revi muita coisa sobre a formação do Reino Unido que já tinha lido em, por exemplo, "Uma história dos povos de língua inglesa", de Winston Churchill (veja aqui mesmo no blog, em http://bit.ly/2sZpwxd). Boa parte delas eu já não lembrava mais, com todas as suas guerras por um trono ou católico ou protestante, com reis holandeses ou alemães que a pinimba atávica com a religião fazia mais legítimos para a nobreza do que um inglês nato. Esta lógica caduca levou ao Levante Jacobita, no miolo do século 18, quando os escoceses resolveram tomar a coroa britânica. Não deu nada certo, hoje a gente já sabe, mas na época foi um baita tumulto. Os scots, apesar de terem feito uma visagem na fronteira inglesa, com um exército maltrapilho invadindo algumas cidades mais desprotegidas, sequer conquistaram o Castelo de Edimburgo. O confronto só serviu para tornar a Escócia menos escocesa. A propósito, descobri pela narrativa de Cavallari o quão impiedosas eram as leis escocesas de então, quando os mandachuvas de cada vale podiam enforcar e afogar seus súditos a seu bel prazer, confiscar animais e até mesmo gente (o dono das terras podia se apropriar de uma criança gêmea no nascimento, ou seja, um rachuncho absurdo tipo tu-fica-com-um-e-me-dá-o-outro). Após o levante, a elite poupada (por bom motivo não foi) fez nas suas terras o que a nossa elite faz na nossa: trocou gente por bicho. Os colonos pobres foram expulsos pelos latifundiários, em prol de mais espaço para as valorizadas ovelhas pastarem. O povo desterrado se tornou imigrante miserável, enquanto a lã e a carne de carneiro enriqueciam ainda mais os landlords. Triste história da civilização humana. Mas nem todo passado é feito de desgraça: o autor deixa as trilhas de lado para nos contar também das épocas remotas do lugar. Volta no tempo para falar da Falha Geológica das Highlands, demonstrando como a região era uma enorme "balsa de pedra", que há 650 milhões de anos vagava pelo planeta, à deriva, zanzando do Polo Norte ao Polo Sul, afundando por milênios e emergindo para enfim encaixar na Inglaterra. O sertão lá é tão antigo que há formações rochosas - o gnaisse - com 3 bilhões de anos, quase a idade da Terra. Na verdade, um edimburguês contemporâneo dos jacobitas revoltosos, James Hutton, foi quem desmentiu um xará seu, o bispo irlandês James Ussher, que havia petulantemente cravado que o mundo tinha sido criado no dia 23 de outubro, no ano 4.004 antes de Cristo. Tal precisão decorria de contas obviamente malucas baseadas no Gênesis - e contestadas por Hutton, cujos estudos definiram um tempo geológico de bilhões de anos para o planeta. Hoje Hutton é considerado o pai da geologia. Cavallari tempera sua (nossa) viagem com isso e muito mais. Personagens reais que se tornaram lenda, como a Maggie Meio-Enforcada e o Sandy Ermitão - a primeira uma adúltera que matou o filho recém-nascido e que por isso foi enforcada, mas reviveu a caminho da cova (pelas leis da época, ela não poderia ser executada duas vezes pelo mesmo crime e a partir daí ficou livrinha da silva); o segundo, um soldado escocês que perdeu a mulher alemã e os filhos carbonizados e depois se isolou, trinta anos recluso nas Highlands, aparecendo somente para beber e roubar - talvez na ordem inversa. Todo este mundo cão pertence ao passado. As terras cuja posse gerou tantas mortes hoje são exemplo de bom-senso e liberdade. O Land Reform Act, a Reforma Agrária Escocesa, de 2003, determina que qualquer um que queira desfrutar da natureza para recreação pode entrar em qualquer propriedade, desde que com respeito, cuidado e responsabilidade. Uau. Que belo modelo para as minhas utopias. Com todos estes nutrientes na mochila, a travessia inóspita de Guilherme Cavallari é um adorável passeio para o leitor, este boa vida. Enquanto ele sofre de cansaço e fome, com as botas encharcadas, recosto na poltrona e saboreio os lugares pelos quais ele passou. Atravesso os vales, desço os paredões de rocha, acampo selvagem ou no (questionável) conforto de um bothy - casas no meio do nada, abertas ao público e preparadas com o básico para receber aventureiros, outro brinde que a Escócia oferece. Aprendo com Walter Scott, Daniel Defoe, Paul Bowles, Robert Louis Stevenson e muitos outros, um baita time de escritores que é mencionado, referido, explicado e que ganha incontáveis aspas nas páginas da obra. Até mesmo a cinemacoteca é abastecida, com filmes que vão do cultuado Trainspotting a O Céu que nos protege, incluindo citações papo-cabeça, como quando alguém - de novo pegando no pé de nós, turistas, simples mortais - explica a diferença entre turistas e viajantes: "Um turista é alguém que pensa em voltar para casa no momento em que começa a viagem, enquanto o viajante pode não voltar jamais." Ops, reforço minha humilde categoria, sou turista convicto, mas aqui me senti viajante. Ou quase um local. Por falar em local, Cavallari ensina ainda que o nome em gaélico do celebrado malte escocês é Uisgue beatha ("água da vida"), o que mostra que o nosso aportuguesamento para uísque deixa o nome mais próximo do original do que o termo whisky britânico. Tudo isso já estaria muitas milhas além do exigido para eu gostar do livro. Mas quando deparo com os feitos e artimanhas de Raibert Ruadh MacGriogair, o lendário Rob Roy McGregor, com encorpados parágrafos sobre um dos heróis da minha infância, aí já é tripudiar. Espremi o livro até o bagaço, feliz. Não dava para ser melhor - pelo menos, não sem estar lá. As Highlands do Guilherme escritor e aventureiro é um minucioso descritivo de como cumprir a trilha Fort William-Cape Wrath, para qualquer trilheiro que se preze. Traz as referências dos bothies, dos passos entre as montanhas, das vilas, dos vales, das rodovias, das alturas e das distâncias. Para os sedentos por saber, ele vai na essência, ao penetrar na história da terra e do povo. Mas qualquer tipo de leitor vai logo perceber, com o livro nas mãos, que ele é uma deslavada declaração de amor. À natureza, à história, aos livros, à Escócia. Mais ainda a algumas pessoas especiais para o autor, as quais, no seu pensamento, fizeram parte, de cabo a rabo, ou de forte a cabo, desta trilha nas terras altas escocesas. Não é pouco. Qualquer um de nós gostaria de se despedir das pessoas que amou eternizando-as nas páginas de um livro. Tornando-as para sempre parte da nossa própria história. Guilherme fez isso. Além dos 446 quilômetros que andou, dos 16.000 metros que subiu, ele nos conta quem foram Martha e Rodrigo. Se revela em reflexões de irmão, cunhado e aventureiro. Desglamuriza sua façanha. O sujeito calado, mas que fala o tempo todo no nosso ouvido, no fim do livro parece mais um parceiro de treino. Compartilha os pequenos e grandes obstáculos do trajeto e nos provoca, frente a cada um dos desafios da montanha e da solidão. Então eu de novo me imagino sentado num cume soberano daqueles, fitando a imensidão deserta e silenciosa. Já fui duas vezes às Highlands. Depois do livro de Cavallari, é ruim de não ir a terceira.

Kalapalo Editora, 224 páginas



P.S.: Algumas coincidências são deliciosas. Olhe como a foto à esquerda e a capa do livro, à direita, são parecidas: a sombra, a vegetação, o vale, a trilha/charco serpenteando, a profundidade, o céu azul por trás dos morros... mas o surpreendente é que uma ignorava a outra! A da esquerda é uma foto que tirei enquanto turistava a esmo pelas montanhas das Highlands, em 2014. A da direita é a capa do livro, lançado em 2017. Doce coincidência.